O Tabuleiro da Geopolítica - Ideologia Sionista

Você sabe o que é sionismo cristão?  


Mas antes de saber, temos que ir à fonte para saber o que é sionismo. Neste sentindo vou olhar criticamente o retrovisor da história, exatamente para te trazer um olhar amplo sobre o que está em jogo neste momento.  


Senta-se aqui, vamos bater um papo... 


Primeiro ponto importante, sionismo é uma ideologia política. Não se esqueça disso!  





Segundo o dicionário:  

Sionismo / substantivo masculino 


1. conjunto de estudos, conhecimentos do que se refere a Jerusalém como patrimônio histórico. 

2. movimento internacional judeu que resultou na formação do Estado de Israel (S.O. asiático) em maio de 1948 e em sua posterior evolução. 

 

O que é Sionismo? 


            O Sionismo é um movimento político que se manifestou no final do século XIX, através da comunidade judaica europeia, que defendia a “restauração” de um Estado judeu independente. Moses Hess (1812-1875), o primeiro teórico do Sionismo, utilizou a perseguição sofrida pelos judeus para defender e justificar a necessidade da criação de uma nação judaica na Palestina.   

          O termo Sionismo será criado por Nathan Birnbaum (1864-1937), com intenção de fazer referência a Sião, um dos nomes bíblicos de Jerusalém. A utilização deste termo tinha como objetivo um apelo religioso, que fortaleceria o movimento político. Ilan Pappé, em seu livro A limpeza étnica da Palestina (2017), apresenta que o Sionismo secularizou e nacionalizou o judaísmo, pois utilizou o território bíblico palestino como fundamento de um movimento nacionalista.   


           Theodor Herzl (1860-1904), considerado o pai do Sionismo moderno, passou a se interessar pelo judaísmo após o processo de acusação de traição enfrentado pelo oficial francês judeu Alfred Dreyfus, no ano de 1894. A partir deste acontecimento, Herzl concluiu que não havia qualquer esperança de integração da população judaica em outras sociedades. Sendo assim, para ele, a única solução seria os judeus terem o seu próprio lar nacional.   


            Os sionistas viam a população nativa da Palestina com desprezo. Segundo Jabotinsky (1880-1940), os judeus não tinham nada em comum com aquilo que para eles significava o Oriente, e agradeciam a Deus por isto.  Em sua visão o Oriente representava passividade psicológica, estagnação social e cultural e despotismo político e, embora os judeus tenham se originado no Oriente, eles pertenceriam cultural, espiritualmente e moralmente ao Ocidente. Este movimento pregava (ou ainda prega) a superioridade cultural da civilização ocidental, que deveria ser levada as terras do Oriente.  


            Israel Zangwill (1864-1926), para definir a Palestina, criou o slogan “uma terra sem povo para um povo sem terra”, propagado pelas principais lideranças sionista (Theodor Herzl, Ben-Gurion e Chaim Weizamann). Com este slogan os sionistas popularizaram e deram “ares de verdade” a concepção de que os árabes palestinos não eram um povo a ser considerado.  Partia-se do princípio que a Palestina era uma terra praticamente desabitada, que deveria ser dada ao seu povo por direito, os judeus, que não tinham território próprio e, por isso, estavam espalhados pelo mundo. Segundo Weizmann (1874-1952) para os britânicos os árabes palestinos eram apenas centenas de milhares de negros (kushim) sem valor.   


            O Sionismo utilizou da sua falsa ideia de movimento de libertação nacional para incorporar uma ideologia de matriz colonial. Essa representação corresponde ao que o intelectual palestino Edward Said define como Orientalismo, um estilo de pensamento baseado na distinção ontológica e epistemológica entre o Oriente e o Ocidente. Para Said, a existência contínua de um povo árabe-palestino é fundamental para entender o impasse que existe entre o Sionismo e o Mundo Árabe. E que Israel, assim como seus defensores, tentou (e ainda tenta) silenciar os palestinos com discursos e ações, pois o Estado judeu se forma principalmente em cima da negação do povo palestino (SAID, 2012).  


Referências:  

Misleh, Soraya. Al Nakba: um estudo sobre a catástrofe da Palestina, São Paulo, Editora Sundermann, 2017.  

 

Pappé, Ilan. A Limpeza Étnica da Palestina. Editora Sundermann, 2017.  

 

SAID, Edward W. A questão da palestina/ Edward W. Said; tradução Sonia Midori. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.   

 

SAID, Edward. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, Companhia de Bolso, 2007. 

 

Agora que você sabe o que é sionismo, permita-me aqui pontuar alguns pontos de suma importância, que vai te ajudar a compreender melhor:  


  • Apelo religioso, que fortalece um movimento político; 
  • Árabes palestinos, não eram um povo a ser considerado; 
  • Nacionalismo Judeu. 


Não se esqueçam destes três pontos, serão importantíssimos para o seu entendimento, pois agora vamos mergulhar mais um pouquinho, e vamos entender o sionismo cristão.  

 

Sionismo cristão é uma crença difundida entre alguns cristãos, notadamente evangélicos pentecostais e neopentecostais, de que o retorno dos judeus à Terra Santa, o estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, e a expulsão dos “gentios” de Jerusalém – sob ocupação israelense desde 1967 -, estão de acordo com a profecia bíblica. O sionismo cristão sobrepõe-se mas é distinto do movimento do século XIX pelo retorno dos judeus à Terra Santa, que teve adeptos motivados tanto por convicções religiosas como políticas. O conceito de sionismo cristão popularizou-se em meados do século XX, substituindo o termo restauracionismo. 

 

Alguns cristãos sionistas acreditam que o ajuntamento dos judeus em Israel é uma precondição para a Segunda vinda de Jesus. Tal crença é principalmente, embora não exclusivamente, associada com o Dispensacionalismo cristão. A ideia de que os cristãos devem apoiar ativamente o retorno dos judeus à Terra de Israel, paralelamente à ideia de que os judeus deveriam ser encorajados a se tornarem cristãos, como um meio de cumprir a profecia bíblica, tem sido comum nos círculos protestantes desde a Reforma. 

 

Tal como os sionistas judeus, muitos cristãos sionistas acreditam que o povo de Israel é o povo escolhido de Deus, juntamente com os cristãos e gentios “enxertados” [Romanos 11, 17-24]. 

 

Entre os que advogaram ou profetizaram a retomada da terra de Israel pelos judeus estiveram John Milton, Locke, Newton, Priestley, Fichte e Robert Browning, além do caso mais conhecido de George Eliot. Entre os políticos podem ser citados Lord Shaftesbury, Palmerston, Milner e Lloyd George. Na tradição iluminista, recorde-se o chamado de Napoleão aos judeus para a reconquista de seu patrimônio durante a campanha síria de 1799. Entre as elites políticas e burocráticas europeias, o sionismo cristão foi quase sempre compatível com o antissemitismo, já que ambos eram favoráveis à saída dos judeus da Europa. 


Vamos marcar aqui dois pontos pontuais:  

  • Neopentecostal  
  • Pentecostal  


Agora que você sabe o que é sionismo, e sionismo cristão, vamos entender aqui o que é o sionismo cristão no Brasil.   

 

A existência de discursos sionistas entre os cristãos é antiga, mas a saliência política desses discursos na esfera pública brasileira é recente e resulta de uma série de fatores socioculturais, históricos e políticos, cabendo destacar a expansão dos segmentos pentecostais e a influência crescente das teologias norte-americanas no meio evangélico brasileiro. 





Introdução 


A existência de discursos sionistas entre os cristãos é antiga, mas a saliência política desses discursos na esfera pública brasileira é recente e resulta de uma série de fatores socioculturais, históricos e políticos, cabendo destacar a expansão dos segmentos pentecostais e a influência crescente das teologias norte-americanas no meio evangélico brasileiro. Nas páginas seguintes trabalhamos com uma literatura pouco explorada pelos sociólogos e cientistas políticos que fomos descobrindo em nossas investigações sobre as posições dos evangélicos brasileiros em relação ao movimento sionista cristão em prol do Estado de Israel. 


Deve-se esclarecer que a análise aqui realizada adota a perspectiva de Crome (2018:9), que define o sionismo cristão como um movimento impulsionado pela crença de que “os judeus teriam, por graça divina, o direito de posse e de habitar a terra prometida a eles no Antigo Testamento” e que, por estar na escritura sagrada, os cristãos deveriam apoiá-los na defesa dessa causa. Na visão de Freston (2020a:386), esse tipo específico de sionismo, pode ser interpretado também como uma estratégia política de segmentos cristãos para inserir a causa pró-Estado de Israel e seu direito de se expandir territorialmente, retórica e pauta dos governos nacionais, via parlamentos e/ou instâncias do Estado. 


Sinteticamente, o conceito de sionismo cristão (Crome 2018; Westbrook 2014; Ariel 2006) expressaria não apenas afinidades ideológicas dos evangélicos com os judeus, mas especialmente ações políticas de movimentos cristãos transnacionais pró-Estado de Israel (Hummel 2019). É preciso registrar, entretanto, que o desenvolvimento de novas teologias e o surgimento de atores coletivos sionistas resultaram em formas diversas de justificativas e de engajamento dos cristãos nas ações políticas em defesa do Estado de Israel. Ou seja, assim como foram identificadas por Gherman (2018), Troy (2018) e Kaufman (1979) formas plurais de sionismo entre os judeus, partimos da premissa de que os discursos e os tipos de iniciativas adotadas pelos cristãos também sofreram alterações ao longo da história. 


As narrativas e ações sionistas de evangélicos podem apresentar variações quando comparamos os contextos históricos, as regiões geográficas, ou mesmo as nações. Afinal, as condições para o desenvolvimento de movimentos sionistas cristãos nas configurações sociais variam segundo não só as articulações internas dos próprios movimentos e os vínculos dos cristãos locais com os centros irradiadores do sionismo no plano internacional (USA-Europa), mas também das relações políticas estabelecidas entre o Estado de Israel e a configuração nacional do Estado em questão, que podem ser muito diferenciadas a depender dos interesses de ambas as partes. 


Para lidar com as diversas faces do sionismo cristão, Freston (2020b) propôs cinco tipos ideais. O primeiro é o “profético” que enfatizaria o uso de profecias do Antigo Testamento e o papel central dos judeus para a construção do reino de deus. Essa forma de sionismo fomentaria, na melhor das hipóteses, a um sentimento dos cristãos de “obrigação de pacto”, e na pior das hipóteses a um “aprisionamento apocalíptico”. O segundo tipo, classificado como “humanista”, surgiu na esteira dos “pogrons” russos do final do século XIX, mas tornou-se bem mais forte depois do Holocausto. Baseia-se na empatia pelo sofrimento histórico dos judeus e na visão da Palestina como um refúgio. O terceiro tipo, o “civilizacional”, expressaria uma identificação mais cultural com Israel - visto como parte da civilização ocidental no Oriente Médio - e dependeria mais do contexto sociocultural do que da religiosidade pessoal do indivíduo. O quarto tipo é o “analógico” e estaria relacionado com setores evangélicos norte-americanos que comparam o desenvolvimento dos EUA com a trajetória histórica dos israelitas no Antigo Testamento, favorecendo a empatia com o Israel moderno. Finalmente, o quinto tipo, o “islamofóbico”, seria mais recente e, ao identificar o Islã como inimigo civilizacional, incentivaria um alinhamento ao Estado de Israel atual. Nessa perspectiva, o estado de Israel, por ser rejeitado e atacado pelos países islâmicos, seria o principal aliado dos países ocidentais. 


Embora se argumente que o sionismo cristão seja anterior, nosso ponto de partida será a criação da Organização Sionista Mundial, por parte de setores judeus vivendo no continente europeu. Inspirada nas ideias de Theodor Herzl, essa organização tinha um caráter político, defendendo o retorno de judeus à região da Palestina e a criação de um Estado Nacional para abrigá-los e foi impulsionada com a realização do Primeiro Congresso Sionista Mundial, na Basileia, Suíça, em 1887. As principais propostas dessa organização, com destacada atuação na Grã-Bretanha, ressoaram em segmentos evangélicos da Inglaterra que, desde meados do século XIX, vinham desenvolvendo uma abordagem hermenêutica bíblica literalista, em que a história humana é marcada pelas dispensações (eras) periodizadas em sete.1 

Conhecida como dispensacionalismo, essa narrativa teológica enfatiza a ideia de que “Deus se relaciona com os humanos através de alianças singulares a exemplo da aliança feita com Abraão, com Moisés, com a Igreja e, por último com o sionismo” (Topel 2011:39). Baseada no Antigo Testamento, essa concepção de História exalta a promessa divina de concessão de uma terra ou território para os judeus e o papel de Israel na Parusia (McDermortt 2016). 


Nessa direção, Deus cumprirá, no final dos tempos, as promessas feitas aos israelitas nas profecias, restabelecendo o reinado de David em Jerusalém e será nessa cidade que Cristo governará o mundo por mil anos. De modo que o milenarismo e o pré-milenarismo são componentes primordiais do dispensacionalismo: enquanto o primeiro destaca o período de duração do Reino que Jesus Cristo implementará na Terra, o segundo sugere que o retorno de Jesus se dará quando Israel for a nação predominante no mundo. 


Um outro aspecto do dispensacionalismo é seu entendimento sobre o Fim dos Tempos. Tal narrativa sugere uma sequência de eventos espetaculares de arrebatamento dos cristãos nos dias da Grande Tribulação, precedendo o Juízo Final. Seja talvez esse caráter performático que faz com que o dispensacionalismo tenha apelo para sua adesão. Há nessa concepção uma convocação para os fiéis: não basta ter fé para ser aprovado por Deus, é preciso estar ao lado de Israel. Autores como Reinke (2018:19-22) e Topel (2011:40-41), entre outros, já assinalaram a irradiação do dispensacionalismo da Grã-Bretanha para os EUA e sua difusão nos grupos fundamentalistas protestantes, dispensando-nos de maiores comentários. Registramos, contudo, que com a maior circulação da visão dispensacionalista no Norte Global, verifica-se, ao mesmo tempo, o fortalecimento do apoio de cristãos fundamentalistas à criação de um Estado judeu nas terras de Israel, por acreditar que ele tem papel central no plano Divino de redenção para a humanidade, se constituindo em uma conditio sine qua non para a volta de Cristo e seu reinado messiânico. 


Sucintamente, o sionismo cristão que surgiu na Inglaterra, a partir da confluência do dispensacionalismo com o movimento sionista internacional, encontraria nos EUA um terreno fértil para propagar-se. Afinal, o dispensacionalismo tem não só um forte componente conservador como também missionário e, durante o século XX, acompanharia de forma significativa as missões de grupos fundamentalistas norte-americanos para outras regiões do planeta. 


Vale ressalvar que, existe um forte consenso na literatura de que todo dispensacionalista tende a ser sionista, ainda que o contrário não aconteça. Também é certo que nem todo sionismo cristão no âmbito internacional foi dispensacionalista, entretanto, no Brasil, a influência do dispensacionalismo parece ter sido importante nas primeiras manifestações das lideranças evangélicas em favor da criação e, posteriormente, da expansão do Estado de Israel no Oriente Médio. Já Topel (2011), Rocha (2017) e McDermott (2016) afirmam que hoje há dispensacionalistas em todos os ramos do Protestantismo. Ainda, o dispensacionalismo tem seu apelo, ora pela curiosidade ora por seu script narrativo com forte componente estético: arrebatamento, fim dos tempos, Cristo reinando na Jerusalém celestial. Nesse ínterim, a figura de Israel acaba superpondo-se, deslizando para um contexto pró-Israel. Com isso, recursos teológicos são acionados, fazendo com que a compreensão do povo judeu reverbere na percepção do Estado-Nação. 


Para alcançar o nosso objetivo de realizar uma genealogia do sionismo evangélico no Brasil, acessamos literatura autoral evangélica, materiais disponíveis na internet e mídia religiosa (sites e vídeos). Iniciamos a exposição das produções por evangélicos brasileiros ainda no século XX que nos permitem rastrear a trajetória, origem, difusão do sionismo cristão suas articulações nacionais e internacionais. Logo, analisamos o contexto e as expressões de certa judaicização das igrejas pentecostais. Após isso, discutimos o protagonismo da New Apostolical Reformation e seu ativismo sionista cristão nas igrejas pentecostais brasileiras. Finalmente, refletimos sobre a incidência do Governo Bolsonaro na consolidação e implementação do sionismo cristão evangélico no país. 


Sionismo político e dispensacionalismo entre evangélicos brasileiros 


Uma das primeiras obras publicadas por uma liderança cristã brasileira, Maranata ou o Senhor vem, foi escrita por Alfredo Borges Teixeira, um pastor e professor de teologia no Seminário da Igreja Presbiteriana Independente Brasileira. O livro foi escrito logo após à Primeira Guerra Mundial e é influenciado também pela revolução bolchevista na Rússia (1917), pela Declaração Balfour (1917) cujo compromisso era o “estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu e pela criação da Liga das Nações (1919). A Imprensa Methodista lançou a primeira edição no ano de 1920.


Na narrativa profética de Borges Teixeira, os judeus são apresentados como responsáveis pela crucificação do Messias. Mas, mesmo que condenados, ao longo de vários séculos, a uma errância pelo mundo, eles devem retornar à região da Palestina, restaurar a pátria e construir um “estado modelo” para as nações. Na visão de Teixeira, a criação da Liga das Nações (futura ONU-1945), o surgimento do movimento sionista internacional e a indicação de Balfour de restaurar o Estado Judaico, sob o protetorado inglês deveriam ser interpretados como sinais da preparação para a segunda vinda de Jesus à Terra. Em suas palavras, “os fatos que estamos, pois, assistindo - o movimento sionista e a resolução de São Remo4 - ajustam-se, maravilhosamente, a todos os dados proféticos sobre a situação política do mundo e dos judeus, por ocasião da Parusia.” (Teixeira 1920:148). 


Os argumentos apresentados pelo autor deixam em evidência que o objetivo do livro é difundir entre os crentes brasileiros as perspectivas pré-milenista e dispensacionalista que vinham se expandindo da Europa para o continente americano e, em especial, para os EUA. Desse ponto de vista, seria muito importante o crente manter-se em vigília e oração, pois a segunda vinda de Jesus estaria próxima e com ela se iniciaria “uma nova dispensação do Reino de Deus, tão distinta da Igreja quanto esta ao é do judaísmo” (Teixeira 1920:16). Ainda que o autor fosse professor em um seminário em São Paulo, a capacidade de difusão de suas posições em relação à criação do Estado de Israel no meio protestante brasileiro parece não ter sido muito significativa nos anos 1920. Porém, nos anos 1970 a Missão Brasileira Messiânica ligada a setores batistas de São Paulo relançaria o livro de Teixeira. Provavelmente essa reedição deveu-se à popularização das concepções pré-milenista e dispensacionalistas entre as diferentes denominações religiosas, graças às inúmeras e bem-sucedidas publicações de autores norte-americanos e europeus (Reinke 2018:147-148). 


Um outro fator que teria favorecido a penetração do dispensacionalismo no Brasil seria a ampliação do trabalho missionário de igrejas norte-americanas no país a partir da década de 1940, por conta das dificuldades crescentes das missões europeias em conseguir recursos durante a Segunda Guerra.5 Época em que nos EUA o fundamentalismo dispensacionalista se recolocava, especialmente entre os batistas do sul que participaram do fluxo missionário para a América Latina. Segundo Bernardino de Santana Filho, esses missionários tinham “estudado no instituto bíblico Moody6 [...] e adotavam uma perspectiva dispensacionalista diferente da teologia europeia. Então essa geração [de pastores] que vai se formar nos anos 1950 para os anos 1960 é uma geração cujos professores foram não mais aqueles primeiros missionários europeus, e sim missionários vindos dos Estados Unidos” (Entrevista, 29/03/2021). 


Com a chegada a São Paulo, em 1966, do casal norte-americano Thomas Larry e Linda Jean McCoy Gilmer, da Igreja Batista,7 verifica-se um impulso para o sionismo cristão no Brasil, pois eles estimulariam as lideranças locais para criação do grupo Amigos de Sião.8 Dessa atuação nasce, em 1967, Associação Internacional das Missões Israelitas (Aimi), que existe até hoje e foi durante muitos anos presidida pelo pastor Gilmer (Templo Batista de Indianópolis/SP). Entre os objetivos da Aimi encontram-se: 


a) levar pessoas a se tornarem cristãos verdadeiros, pois assim serão Amigos de Sião e não antissemitas ou anti-sionistas; b) motivar pessoas a orar pela “Paz de Jerusalém” (Sião) Salmo 122:6; c) motivar pessoas a combater o “antissemitismo” e “anti-sionismo”; e d) motivar e orientar pessoas a se envolver no processo de paz para Israel. Em outras palavras: Testemunhar, orar e agir.


Outra iniciativa interessante desse grupo foi a criação da Sociedade Bíblica Trinitária do Brasil (1968) que passou a disputar as traduções do livro sagrado com o intuito de garantir que os brasileiros pudessem ter acesso a uma versão fiel dos “manuscritos originais” do Velho e Novo Testamento. De acordo com Gilmer, isso precisava ser feito, pois além da evangelização e da ação social, a igreja enfrentava um novo desafio neste milênio: “o apoio irrestrito a Israel, nação escolhida por Deus”.


Entre as realizações desse grupo batista em relação a este último desafio, identifica-se a publicação, em 1976, do livreto intitulado Sionismo não é racismo, pela Associação Internacional das Missões Israelitas. Escrito pelo pastor brasileiro Gerson Rocha que dirigia a Igreja Batista de Vitória da Conquista (BA). O livro foi concebido como uma clara reação à Moção da ONU, de 1975, que associava o sionismo ao racismo e que em 1991 foi revista pelos integrantes daquela organização internacional. 


Na visão de Rocha, o povo judeu é vitimizado e seu retorno da diáspora é vontade divina, todos os seus argumentos serão biblicamente legitimados. Rocha considera que o sionismo como proposta territorial parte de uma visão providencialista da história e se coloca como um “movimento moral e juridicamente irreversível”, “uma solução que a história impôs”, “um fato biblicamente estabelecido”. Aqueles que não reconheçam essa suposta verdade histórica e tentem frear e/ou anular o sionismo “atentam contra a lei internacional, a moral, a Providência de Deus. [por isso] Os inimigos do sionismo deveriam meditar bastante, antes de contrariar as forças da justiça que operam em favor do universal movimento para o Sião” (1976:17). 


Nessa leitura pré-milenialista, a postura pró-Israel se justificava por que os acontecimentos envolvendo os judeus sinalizavam a proximidade da “segunda vinda de Jesus Cristo com Poder e Grande Glória.” De forma que a solidariedade dos evangélicos com os judeus seria “impelida pelo dever de lealdade à palavra de Deus”. Afinal, “Jesus diz: a salvação vem dos judeus” [João 4:22] (Rocha 1976:47). “Sofremos com Israel, sentimos suas angústias; suas aflições nos dizem respeito e com ele, aguardamos a hora da redenção [Lucas 21:25;28] (Rocha 1976:47). 


Lançado no contexto da ditadura militar, especificamente no ano em que um evangélico era o mandatário do país - General Geisel -, esse livro é uma moção de apoio aos judeus. Ele conjuga argumentos da escatologia norte-americana com as controvérsias na mídia impressa nacional sobre a associação do sionismo com o racismo, apresentando essas controvérsias como sinal do alinhamento da sociedade brasileira com a causa judaica. Para o autor, todos deviam repudiar a moção da ONU, pois ela cria a base legal para “o extermínio do povo de Israel. Na conjuntura político-econômica em que aparece essa moção iguala o sionismo ao racismo e à discriminação racial, fica demasiadamente patente, em seus objetivos últimos. É o velho ódio antissemita que, no tempo de Hitler, atingiu a sua mais devastadora expressão.” (Rocha 1976:74). 


Em 1977, a editora Junta de Educação Religiosa e Publicações, da Convenção Batista Brasileira (CBB), lançou a série Escatologia em Debates com um livreto escrito pelo Reverendo Synésio Atiliano Pereira Lyra (1895-1993).11 Esse pastor pernambucano congregacionalista enfrentou Frei Damião em uma Controvérsia Religiosa realizada em praça pública, na década de 1930, ganhando reconhecimento como liderança protestante na região norte do país (Bernardino Santana Filho, Entrevista 29/03/2021). No final da década de 1930, entretanto, Synésio mudou-se para a região sudeste, rompeu com a Igreja Evangélica Congregacional e fundou a Igreja Bíblica Congregacional do Rio de Janeiro (1956). A criação da nova igreja revelava uma guinada teológica do pastor que se aproximava cada vez mais dos debates dispensacionalistas dos fundamentalistas norte-americanos. 


Deve-se registrar que, entre 1951 e 1954, Synésio presidiu a Aliança Latino-Americana das Igrejas Cristãs, posteriormente atuou na Confederação das Igrejas Evangélicas Fundamentalistas do Brasil (1956/1960) e participou da comissão executiva do Concílio Internacional das Igrejas Cristãs, que havia sido criado por lideranças dispensacionalistas em oposição ao Conselho Mundial de Igrejas (1948). Mencionamos essas atuações porque elas revelam não só articulações no interior do meio evangélico nacional, mas também no plano internacional, o que nos ajuda a entender o interesse do pastor Synésio pelo tema do Sionismo e pelas questões geopolíticas, envolvendo judeus e palestinos. 


Intitulado O Sionismo - Análise à Luz de Sião, Cidade do Grande Rei, o livro escrito por Synésio tem também o propósito de criticar a associação do sionismo com o racismo apresentada no âmbito da ONU, em 1975. Mas seu objetivo principal parece ser difundir no segmento cristão uma narrativa formulada por intelectuais orgânicos do movimento sionista sobre a trajetória histórica dos judeus, a criação do Estado de Israel e o conflito árabe-palestino, nos anos 1950, 1960 e 1970. Isso fica claro quando o autor registra seus agradecimentos à responsável pela publicação de uma revista da comunidade judaica paulista, Shalom Análise,12 que lhe deu permissão da reprodução de trechos de “ilustres pensadores israelenses” para falar do sionismo e da nação israelita. Assim, o conteúdo do pequeno livro (106 páginas) oscila entre a narrativa cristã e as longas citações dos articulistas que adotam um enquadramento mais étnico e histórico centrado no sionismo político, no movimento de libertação nacional e nos conflitos do Estado de Israel com os árabes. 


Na introdução, o autor adota uma perspectiva dispensacionalista e pré-milenista associando a dispersão e as tribulações à infidelidade dos “filhos de Israel” ao Senhor Deus, que havia feito um pacto com Abrão e concedido aos seus descendentes as terras entre os rios do Egito e Eufrates. De acordo com suas palavras, notamos, através das Sagradas Escrituras, que, enquanto Deus manifesta sua graça ao seu povo, os filhos de Israel retribuíam com sua ingratidão, afastando-se do caminho do Senhor. O que sobressai em toda sua história [dos judeus] são altos e baixos - bênçãos da parte de Deus e desobediência por parte do povo. (Lyra 1977:16) 


Baseando-se no Salmo 23, Lyra (1977:16-17) afirma que, mesmo se sentindo traído, o Senhor Deus continua “socorrendo o povo judeu nas horas extremas” e que entre os apátridas, apesar de inúmeras divergências, existe “um elo inquebrável”, o sionismo, que aqui se confunde com um sentimento de identidade territorial que os une “em prol de uma pátria comum”. A constituição dessa nação dos israelitas é um requisito importante para o cumprimento das profecias, mas não garante a salvação de todos. O autor tem uma percepção negativa do período pós-guerra que é apresentado como “tempos de apostasia da fé” e da “vida desordenada, pecaminosa e materialista”. Nessa interpretação, trata-se de um cenário em que “muitos filhos de Israel se enquadram no esquerdismo ou comunismo, renegando assim a crença dos seus antepassados”. A salvação eterna pressupõe o reconhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo como o Messias de Israel! (Lyra 1977:23) 


Quando lança mão dos artigos publicados na revista Shalom Análise, Lyra tenta articular as interpretações dos articulistas com a sua própria narrativa escatológica. Se na introdução o sionismo era apresentado como “elo inquebrável” que ligava os “filhos de Israel”, com o uso do recurso literário das citações entre aspas, o autor apresenta o sionismo como movimento político que merece um enquadramento histórico. Nessa toada apresenta a versão dos articulistas sobre a criação do Estado de Israel e os embates posteriores dos israelitas contra o imperialismo inglês e a ONU. Três resoluções das Nações Unidas são criticadas e apresentadas como “tremendamente violentas” contra Israel - violentas na linguagem, como nos malvados objetivos: 1ª) a que permitiu a participação da Organização de Libertação Palestina (OLP), na Conferência de Genebra, e reuniões sobre a paz no Oriente Médio; 2ª) a criação de uma Comissão na ONU contra o Apartheid e outras formas de discriminação racial, que deveria acatar sugestões de Estados e organizações regionais intergovernamentais e da OLP; e a 3ª) a moção de 1975 que associava o sionismo a uma “ideologia racista”. Segundo Synésio: condenar o Sionismo como uma “forma de racismo e discriminação racial” e não condenar a “Liga Árabe”, que podia ser denominada “Arabismo”, e tem a mesma finalidade do Sionismo, honesta e nobre - a união do seu povo numa organização geral; para o bem comum - é usar dois pesos e duas medidas, que é uma abominação aos olhos do Senhor. (Lyra 1977:45) 


Resumidamente, na visão do pastor dispensacionalista, a atuação da ONU favorecia a OLP, uma “federação de grupos árabes de terror que pretende representar os palestinos e que mediante suas ações e o uso indiscriminado do terror” teria o objetivo de eliminar o Estado de Israel. De forma que era preciso não só repudiar as resoluções que atrasavam os planos de Deus para Israel e todas as nações, como também oferecer aos cristãos e judeus um “roteiro seguro do que está para acontecer no arruinado e agonizante mundo” até que chegue “o grande dia, quando o Senhor habitará a cidade do Sião, sentado no restaurado trono de Davi, como Rei Messias”. 


O posicionamento sionista e o engajamento no debate público sobre o conflito entre israelitas e árabes começam então a se difundir em outros segmentos evangélicos. Afinal a circulação ou o fluxo transnacional de atores religiosos e de publicações dispensacionalistas, assim como de formas de financiamento para as iniciativas dos grupos cristãos no Brasil é bem mais ampla e não passam apenas pelos Estados Unidos. 


Em 1978, um terceiro livro em reação à resolução da ONU sobre o sionismo foi lançado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD). Intitulado Israel, Gogue e o Anticristo, escrito por Abrão Almeida (1978), vinculado à Igreja Assembleia de Deus e posteriormente fundador da Igreja Evangélica brasileira de Coconut Creek, na Flórida/EUA (1988). Como nas publicações mencionadas anteriormente, no livro Israel, Gogue e o Anticristo, o exílio e as perseguições históricas sofridas pelos judeus ao longo dos séculos são castigos divinos pelo fato de os israelitas terem matado o filho de Deus. Ou seja, mobiliza-se uma narrativa mística de Israel e busca-se nos fatos históricos, envolvendo as comunidades judaicas no mundo, os sinais que comprovem as profecias bíblicas. 


Nesse sentido, Almeida, mais do que fazer uma defesa política do Estado de Israel, em seu discurso mostra que Israel só existe para cumprir as profecias do fim dos tempos, seu sofrimento é desígnio divino e revela o papel do povo judeu para a igreja. Assim sua posição é menos política do que as identificadas nos escritos de Rocha e Lyra e tem um caráter mais conversionista. O autor tenta convencer o leitor da necessidade de reconhecer a proximidade do fim dos tempos e de se aceitar o chamado de Cristo. O futuro dos israelenses interessa pelo que pode representar em termos de cumprimento das profecias. “O milagroso renascimento de Israel e a crescente centralização nesse pequeno país das atenções, interesses e preocupações de todos os povos mostram a rápida aproximação do verão profético, a assinalar a breve volta de Cristo”. O “renascimento político precede o renascimento espiritual” dos judeus que no final dos tempos se converterão a Cristo, assim: 


O povo de Israel somente será cheio do Espírito Santo quando se converter a Jesus no final do “dia de vingança do nosso Deus” [Is61.2], ou seja, da Grande Tribulação, do “tempo da angústia para Jacó” etc., que culminará com a batalha de Armagedom no final do reinado do anticristo [Jeremias 30.7; João3.36; Apocalipse3.10;7.14;11.18]. (Almeida 1999:47)

 

Conforme Almeida, a história já tem uma direção, os acontecimentos históricos - a Guerra Fria, o comunismo, os acordos diplomáticos, a criação do Conselho Mundial das Igrejas e de outras organizações transnacionais, o antissemitismo etc. - devem ser interpretados com base nas profecias. Dessa maneira, o grande personagem do livro é a Rússia, na época URSS, que teria desempenhado um papel central, segundo o autor, nas negociações para a criação do Estado de Israel no âmbito da ONU.14 A URSS seria o Gogue já previsto nas profecias e cuja atuação apressaria o aparecimento do Anticristo entre os judeus. O Anticristo estabeleceria um governo mundial durante sete anos e, só no final desse período, Jesus retornaria. Diferentemente das publicações que lhe antecederam na década de 1970 e que mobilizavam o termo sionismo em seus títulos, a narrativa do assembleiano tem um tom bem mais profético como o de Teixeira, escrito no início do século. Ou seja, não haveria muito o que fazer a não ser saber reconhecer os sinais dos tempos. De acordo com suas palavras, “o fortalecimento e florescimento de Israel é hoje uma realidade incontestável e o assinala, como o relógio de Deus, a proximidade da vinda de Jesus” (Almeida 1999:74). 


Abrahão Almeida lançou, na década seguinte, dois outros livros pela mesma CPAD: Assim Vive Israel (1985) e Israel, de Herodes a Dayan (1987), o que revela o interesse de segmentos da Assembleia de Deus em fomentar o debate no meio evangélico brasileiro sobre a relação entre a nova da vinda do Messias e os acontecimentos no Oriente Médio. Deve-se registrar que essa editora também lançou, em 1987, o livro Israel por Dentro, escrito por outro pastor da AD, Elizeu Queiroz, depois de sua viagem a Jerusalém. Sem dúvida alguma, a publicação com maior circulação nas igrejas locais foi mesmo o livro Israel, Gogue e o Anticristo (1978). Nas referências bibliográficas de Almeida, identificamos, além de uma outra publicação de Synésio Lira, O Oriente Médio, a batalha do Armagedom e depois? (1974), o artigo do holandês Wim Malgo, intitulado “Cinquenta respostas tiradas da palavra profética”, que traduzido para o português havia sido publicado na revista Chamada da Meia Noite. 


Wim Malgo criou em 1955, na Suíça, a Obra Missionária Chamada da Meia Noite e começou a publicar a revista em alemão em 1956. Em meados da década de 1960 enviou missionários ao Brasil que fundaram o braço da Obra Missionária no Rio Grande do Sul, aproveitando a existência das colônias alemãs daquele estado para fazer o trabalho missionário. Em 1968, foi criado o Ministério Bíblico da Palavra Profética, com caráter interdenominacional, as atividades foram se expandindo para outros estados e regiões e os folhetos com as interpretações das profecias traduzidos para o português passaram a circular entre diferentes denominações. 


Arno Froese, diretor da Chamada da Meia Noite nos EUA, em visita ao Brasil em 1975, estimulou a criação de uma gráfica para publicar o material a ser divulgado pela Obra, ampliando a capacidade de propagação das ideias dispensacionalistas do grupo no país. Em 1978, a Obra lançou a revista Notícias de Israel, que circulou até o ano de 2016, quando ocorreu uma fusão dessa publicação com a Chamada da Meia Noite, uma das maiores divulgadoras da teologia dispensacionalista e do sionismo no Brasil (Reinke 2018:105).16 Com uma posição sionista, a Obra Missionária organiza, até hoje, grupos para fazer turismo em Israel (Beth-Shalom Internacional) e anualmente realiza um evento chamado Noites de Israel, que é replicado também no Templo Batista de Indianápolis17com objetivo de promover “o amor a Israel”. 

Enquanto Borges Teixeira difundiu sua empatia pelo sionismo, com base em uma visão pré-milenista e dispensacionalista norte-americana, perspectiva que também acompanha a Gerson Rocha e Synésio Lyra nos seus posicionamentos políticos pró-defesa do Estado de Israel, Abrão Almeida nos apresenta a influência europeia do sionismo cristão entre os evangélicos brasileiros. De qualquer modo, só no início do século XXI tornam-se mais evidentes os discursos sionistas cristãos no debate público nacional. Segmentos batistas, assembleiano, bem como grupos ligados à Nova Reforma Apostólica dos EUA, assumiram, nos últimos anos, a linha de frente do sionismo cristão brasileiro.

Do filosemitismo e judaicização de grupos pentecostais no Brasil ao sionismo cristão 


Apesar da criação de várias organizações cristãs em defesa de Israel e da publicação de livros de autores estrangeiros e nacionais sionistas cristãos, como narrado anteriormente, não ocorreu uma mobilização política sionista pelos setores evangélicos brasileiros durante o século XX. Esta surgirá em nosso país somente no início do século XXI. Para entender esse fenômeno, é importante destacar que a atuação evangélica na política, como um setor organizado da sociedade, ocorre no final dos anos 1980 com a redemocratização. 


Surge nessa época o ator coletivo denominado pela mídia de a “bancada evangélica”. A prévia retração política desse grupo religioso se devia não apenas à repressão política durante o regime militar, mas também por ênfase nos valores morais e extramundanos. Rejeitavam-se os valores do mundo contemporâneo que era interpretado como um anúncio dos fins dos tempos. A maioria dos evangélicos compartilhava um discurso conversionista, de santificação pessoal e da iminente parúsia, bem como uma visão negativa desse mundo e da política. 


Análises das mídias impressas evangélicas e das pregações de pastores nas décadas de 1980 e 1990 indicam uma reconfiguração dos discursos religiosos. Enquanto enfraquece a visão apocalíptica, cresce uma pregação mais voltada para esse mundo e para o tempo presente: prosperidade, libertação e cura. Especialmente nos anos 1990 um otimismo da abertura política, do crescimento econômico, a maior presença na mídia e a crescente visibilidade podem ter contribuído para essa reformulação discursiva. Ainda que o impacto da teologia da prosperidade tenha variado nas diferentes igrejas, os fiéis recém-convertidos, foram menos expostos a discursos dispensacionalistas e tendiam a ter mais expectativa em relação a sua prosperidade, cura e libertação do que na parúsia que era vista como distante. 


As igrejas consideradas “neopentecostais” que surgiram no Brasil a partir do final da década de 1970, como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), pregavam apenas sobre a relação do indivíduo com Deus e não discutiam nada sobre a segunda vinda de Cristo e o fim do mundo e, muito menos sobre o papel da criação do Estado de Israel nesse processo. Predominava nessa década um pentecostalismo que valorizava o combate e/ou expulsão do demônio como batalha espiritual e a prosperidade, dois eixos fundamentais da chamada “teologia do domínio”. A IURD prega uma busca de melhora de condições de vida e prosperidade via o combate de espíritos considerados do mal. É essa perspectiva teológica que inspira a Igreja e seus fiéis no tipo de atuação pública e o discurso religioso. 


Ao longo de sua história, a IURD passa a valorizar Israel e ter práticas judaizantes e filossemitas - entendidas as primeiras como a incorporação de elementos simbólicos e rituais da estética judaica nas práticas religiosas das igrejas e as segundas como o cultivo de sentimentos de apego e valorização do povo judeu, bíblico e/ou moderno (Bruder 2017). Ambas as práticas tendem a reforçar um imaginário pró-unidade étnico-religiosa e a unidade política do Estado de Israel. Assim, o filossemitismo pode favorecer a judaicização, mas nem todos os líderes evangélicos filossemitas seguem necessariamente essa tendência. Da mesma forma, o filossemitismo está na base do sionismo cristão, mas nem todo filossemita engaja-se nas iniciativas políticas a favor do moderno Estado de Israel. Existem líderes evangélicos que valorizam o judaísmo, mas apresentam uma visão crítica ao caráter bélico do Estado de Israel atual. 


A primeira viagem de Edir Macedo a Jerusalém ocorreu em 1981, ocasião em que, levou os pedidos dos fiéis da IURD para a Fogueira Santa. Em 1982, o grupo liderado por Macedo organizou a 1ª Caravana para Israel e iniciou um processo de aproximação com Israel (Terra Santa e próspera), além de uma incorporação crescente dos símbolos e das comemorações judaicas. De acordo com Gomes (2011), no livro lançado, em 2002, por ocasião da comemoração dos 25 anos de fundação da igreja, já ficaria explícita a incorporação da “Terra Santa na retórica e na cosmologia da IURD”. No capítulo intitulado “O amor à Terra Santa”, Gomes (2011) identificaria uma tentativa de associar o Israel mítico ou bíblico à “concepção de autenticidade” que vinha sendo formulada pela IURD. 


Por outro lado, Paganelli (2020) e Frossard (2013) relacionam o crescente interesse por Israel entre os pentecostais, e evangélicos brasileiros em geral, ocorrido na década de 1990 ao fomento do turismo evangélico para a Terra Santa. Segundo Fonseca (1987 apud Frossard 2013) as caravanas para Israel se tornaram importante fonte de renda para várias igrejas, algumas criaram, inclusive, agências de viagem. Segundo esses autores, um dos primeiros líderes evangélicos a levar caravanas a Israel foi o pastor Caio Fábio, que também veiculava nos seus programas televisivos, como os da extinta VindeTV, vídeos com pregações e meditações realizadas em Israel. Já nos anos 1990, outros pastores conseguiram também lotar aviões graças ao fortalecimento da moeda brasileira que ampliou as possibilidades de financiamento dessas viagens para as camadas sociais médias e média-baixa da população (Paganelli 2020). 


Três dos destacados sionistas cristãos da atualidade, René Terra Nova, Silas Malafaia, e Valnice Milhomens, estão entre os líderes evangélicos que lotavam aviões nos anos 1990 para Israel. Os três comentam sobre o sentimento de amor a Israel que a ida à Terra Santa despertou neles. No entanto, seus discursos apenas se tornam claramente sionistas nos anos 2000, mesma época em que também Malafaia adota esses discursos A exceção, dentre os que lotavam aviões, é o pastor Caio Fábio, que atualmente expressa seu amor aos judeus e Israel, mas questiona o governo de Israel atual e seu projeto expansionista.


A IURD organizou viagens à Israel, mas relativamente menos. Seu interesse por Israel se desdobra para além das caravanas. Em 1999, o pastor Marcelo Crivella19 inicia o projeto social no sertão da Bahia chamado Fazenda Canãa com o uso de tecnologia de irrigação desenvolvida em Israel. No mesmo ano, fica pronta a construção da miniatura da cidade de Israel na Antiga Catedral do Rio de Janeiro que foi inaugurada por Macedo com as seguintes palavras: “um dos meus maiores sonhos era levar todo o povo da IURD para conhecer a Terra Santa, mas como não se tornou possível, trouxemos Israel para o Brasil.”

 

Um outro projeto da IURD expressa o lugar que o Israel bíblico ocupa no imaginário da sua expansão e consolidação, a construção em 2015 do Templo de Salomão (suposta réplica do Templo bíblico destruído em 587 a.C.), sede mundial da IURD em São Paulo (Gomes 2011Carpenedo 2021). Sem dúvida, o filossemitismo e a mimetização com judeus ou “judaização” ficam evidentes na cerimônia de abertura do templo Salomão com o Bispo Macedo travestido de rabino: com barbas longas, quipá e talit. Nesse evento, o líder religioso não fez, entretanto, qualquer defesa ao Estado de Israel nem referência aos fins dos tempos ou ao papel dos judeus na segunda volta de Jesus. Também não foram identificados discursos da liderança dessa igreja na internet em defesa de políticas pró Israel. Assim, associamos mais a IURD ao filossemitismo do que ao sionismo cristão, como já definido. 


O filossemitismo iurdiano parece muito vinculado à busca pela bênção de Deus e à promessa de Deus de abençoar a todos que amam e apoiam Israel. A adesão a Israel (bíblico ou Estado) está longe do discurso apocalíptico, mas perto da prosperidade dos judeus e do apoio de Deus aos israelitas. Destaca-se o sucesso tecnológico que resulta em produtos agrícolas e industriais em abundância e a vitórias militares, portanto, um país poderoso econômica e militarmente. No entanto, há indícios que essa igreja possa mudar seu discurso no futuro. 


Em 2017, a Rede Record de televisão, da IURD, lançou a novela Apocalipse cujo enredo mistura ficção científica com textos bíblicos. Esse produto cultural, como outros mais recentes, sugere aproximação da inteligentia iurdiana com a narrativa profética de outros setores evangélicos. O livro A Terra vai pegar fogo (2020), escrito pelo bispo Renato Cardoso (provável sucessor de Macedo), indica uma inflexão na mesma direção. O autor comenta detalhadamente versículos do Apocalipse, argumentando que as profecias estão se concretizando e todos devem se converter antes do fim do mundo. A sua narrativa do arrebatamento tem afinidades com o dispensacionalismo. Se esses produtos culturais resultarão em um engajamento da IURD ao sionismo cristão, não temos elementos para afirmar, entretanto, mas a literatura especializada tem mostrado a grande plasticidade dessa igreja. 


Já os discursos públicos de outras igrejas que adotaram a teologia do domínio (TD) são de alinhamento e comprometimento com os interesses da elite política israelita atual. Verificamos um ativismo político pró-Israel especialmente entre as igrejas que tiveram mais contato com o grande divulgador dessa teologia, Peter Wagner, e cujos líderes se vinculam à chamada Nova Reforma Apostólica - New Apostolical Reformation - NAR. Grosso modo, nessa teologia, conhecida como Kingdom Now, Teologia do Reino ou das Sete Montanhas, confluem as correntes calvinista reformada (reconstrucionismo) e a pentecostal carismática, ambas inspiradas no Antigo Testamento e na interpretação do Apocalipse sobre o final dos tempos, afirmando que a Segunda Vinda de Cristo depende da implementação do Reino de Deus agora (Ice 2009). A seguir, mostraremos como essas lideranças do NAR são explicitamente sionistas cristã. 


A Nova Reforma Apostólica e o ativismo sionista no Brasil 





Na virada dos séculos XX para o XXI, torna-se visível em várias igrejas no Brasil uma teologia que defende a dominação cristã do “mundo” por meio da expulsão dos demônios. A luta contra o demônio que se integra a uma busca de prosperidade e de maior poder no espaço político ganha força, não apenas em igrejas pentecostais (Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus), mas também nas chamadas “renovadas” (como a Igreja Batista da Lagoinha) A chamada “teologia do domínio” se destaca entre os grupos cristãos que adotam políticas mais ousadas de representação e intervenção no espaço público. 


A Teologia do Domínio e a ideia de Batalha Espiritual já eram fortes no Brasil desde o final dos anos 1980, mas naquela época se enfatizava a expulsão de demônios ligados a questões familiares e pessoais, e era menos frequente o uso da noção de “demônios territoriais”, que dominariam países e suas culturas (Rosas 2015:77). Registramos uso dessa noção em meados de 1990. Ilustramos o caso com um artigo da revista da Assembleia de Deus, Seara, de março/abril 1996. O artigo defendia o envio de missionários para uma área chamada de “janela 10-40”, que era habitada basicamente por muçulmanos e budistas, por isso a missão exigiria um combate aos “demônios territoriais”, os responsáveis pelas enfermidades, pobreza, calamidades daquela população. Dessa forma, ao expulsar esses demônios os missionários iriam levar o Evangelho e a prosperidade para aqueles povos (Mariz 2017). Além da realização das missões, a teologia do domínio busca legitimar e estimular a entrada de líderes evangélicos na esfera pública, pois somente assim se implantaria o Reino ou Governo dos Justos. A expulsão dos maus espíritos permitiria a dominação do mundo pelos cristãos preparando vinda do Reino de Deus. Argumenta-se aqui que a recente maior aproximação da direita cristã americana foi possível via a lideranças pentecostais estadunidenses e graças a essa dimensão pentecostal do paradigma do Reino. 





Embora haja fatores internos à sociedade brasileira que explicam novas atitudes dos evangélicos na política nesse início do século XXI, sugere-se que que há uma novidade: a influência político-religiosa de lideranças pentecostais, neopentecostais, renovadas e carismáticas norte americanas em igrejas brasileiras também pentecostalizadas. Ao contrário do que ocorre nas igrejas históricas brasileiras, cujos pastores estudavam em seminários e por vezes no exterior, a tradição pentecostal se caracterizava por não enfatizar estudos acadêmicos e teológicos nem no país nem fora dele. 


Nos últimos anos observam-se mudanças nesse cenário por meio da articulação nacional e internacional da NAR e a influência de Peter Wagner. Lideranças brasileiras importantes passaram por formação teológica nos EUA e algumas estudaram no Seminário Pentecostal Fuller na California, onde Wagner ensinava (Valnice Milhomens, Neuza Itioka e Ana Paula Valadão). Por outro lado, a liderança pentecostal brasileira se abriu mais para contatos com líderes e movimentos de outros países. Um dos primeiros exemplos de integração com propostas do exterior foi o caso da citada Valnice que, ao abandonar a Congregação Batista, estimulou o Apóstolo colombiano César Castellanos a trazer sua estratégia de crescimento exponencial das igrejas e sua organização em células (denominada de Visão Celular ou G12) para o Brasil. René Terra Nova e Márcio Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), foram outros líderes formados na Igreja Batista. Posteriormente Terra Nova cria o M12, uma dissidência do G12, que agrega uma rede de igrejas e apóstolos no Brasil. 


Em 2001, René Terra Nova, Marcio Valadão e Valnice se tornam “Apóstolos” e lideranças da NAR. No ano seguinte (2002) foi a vez de Neuza Itioka. Os dois homens foram ungidos pelo Apóstolo colombiano (Castellanos), enquanto as mulheres, pelas mãos do apóstolo costarriquenho Rony Chaves, um importante difusor do sionismo cristão no continente americano. Chaves havia se tornado membro da International Coalition of Apostles, em 2000, um ano antes de ter vindo ao Brasil consagrar uma equipe internacional de intercessores a ser “enviada para tomar a Janela 10/40 pelo Movimento AD2000”. Fato que revela como Chaves abraçava a teologia do domínio e tinha articulações com as iniciativas da AD. 


A Coalizão Internacional de Líderes Apostólicos teria surgido em um congresso em Singapura, em 1999, onde Peter Wagner estava presente, logo em seguida foi criada a Coalização Apostólica do Brasil. Segundo Lopes (2014), há milhares de Apóstolos em todo o país, e uma característica marcante desse movimento religioso pentecostal é a adoção de práticas judaicas. A Valnice, por exemplo, chega a seguir os judeus no costume de guardar o sábado e não o domingo como fazem os católicos e evangélicos históricos.25 No entanto, para Paganelli (2020:125), Milhomens, que “foi pioneira em envolver brasileiros na celebração da Festa dos Tabernáculos, em Israel”, adota esse comportamento a partir de suas idas a Israel. A sua primeira viagem aconteceu em 1985, depois começou a trabalhar com a ideia de promover caravanas e realizar congressos proféticos em Israel explorando os diferentes pontos turísticos com base no texto bíblico. Sabe-se que mais de duas dezenas de Congressos foram realizadas em terras israelenses por Valnice.


Mesmo que nem todos os chamados Apóstolos celebrem as festas judaicas, observa-se entre eles e em suas igrejas um forte filossemitismo e em vários casos um ativismo político a favor da causa sionista. Esse é o caso da igreja Batista da Lagoinha do apóstolo Márcio Valadão), que se destaca tanto por seus vínculos com Wagner e com outros apóstolos, como Cindy Jacobs, como por estimular o amor de cristãos a Israel. Há várias iniciativas nesse sentido nessa igreja, tanto por parte da pastora-cantora gospel Ana Paula Valadão quanto por sua tia a pastora Ângela Valadão. A primeira tem realizado em Israel shows divulgados por vídeos e discos, inclusive cantando em hebraico. Já Ângela, junto com seu esposo, é responsável pelo Ministério Gideões 24 horas Diante do Senhor, publica muitos vídeos sobre Israel e sua causa, tendo divulgado celebrações da libertação dos prisioneiros de Auschwitz, os 100 dias de oração por Israel, entre outros eventos. Também coordena viagens turísticas àquele país. 


Apesar de, segundo Barbosa (2017:159), Terra Nova ser “o maior patrocinador de eventos com a presença de Wagner e outros exponentes norteamericanos da NAR” no Brasil, esse Apóstolo afirma que sua opção pela defesa do Estado de Israel é anterior a sua participação na coalização de Apóstolos. Como já indicado, muitos dos sionistas atuais associam sua empatia com a causa judaica com a visita a Israel. No site da igreja de Terra Nova, identificamos um texto apontando a importância da participação nas Festas de Tabernáculos em Israel para a adesão desse pastor ao sionismo cristão. 


Em 1994, depois do Pastor Renê ascender pela primeira vez à Festa dos Tabernáculos em Israel, um novo entendimento tomou conta do povo da Restauração: a celebração da nossa própria Festa dos Tabernáculos. Fomos libertos da visão de Roma e voltamos para Jerusalém! As escamas dos nossos olhos caíram, e o povo, a cada dia, tornava-se mais livre pelo conhecimento dos Princípios Bíblicos.


Esse relato revela o papel destacado da Embaixada Internacional Cristã de Jerusalém nesse processo de crescimento do sionismo cristão no Brasil, ao menos, esse parece ter sido o caso do sionismo de Terra Nova e de Milhomens. A cada ano, a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém (ICEJ), entidade evangélica sediada em Israel desde 1980 com objetivo de estimular o sionismo cristão, organiza celebrações da Festa dos Tabernáculos para cristãos do mundo todo. Em 2011, Terra Nova inaugura um braço dessa organização em Manaus, sendo ele o embaixador para o Brasil. Em congresso organizado em 2012, um dos convidados foi o Embaixador geral da ICEJ, Jürgen Bühler, que fez palestra destacando como Deus abençoa aqueles que abençoam o povo judeu e a nação de Israel (Frossard 2013:106). 


Há ainda o caso distinto de Neuza Itioka. Essa líder narra que seus pais japoneses, que já tinham se convertido ao cristianismo no Japão, se referiam a um “relógio de oração”, um tipo de corrente de oração, para que o povo de Israel voltasse para sua terra e formasse de novo seu país. Segundo seu relato, essa proposta do relógio de oração foi uma revelação de um pastor japonês que fundou a igreja de seus pais ainda no Japão nos anos 1930. Atualmente a apóstola Itioka participa da Glory of Zion. Em que medida esses relatos são reconstruções biográficas, não temos como saber. 


Outra questão a ser analisada é o conteúdo do sionismo pregado no Brasil. Em caravana liderada por Terra Nova, Frossard (2013) registrou pregações de sionismo cristão misturado com teologia da prosperidade. Ainda sobre Terra Nova, Hummel (2017 e 2019) concorda com Frossard e sugere que a ênfase na prosperidade de Israel, e daqueles que a abençoam, diferenciaria o sionismo cristão brasileiro, e provavelmente o do sul Global, do norte-americano. Esse último seria focado no fim do mundo, como as profecias de Pat Robertson. 


Talvez isso se explique o fato de que no Sul Global as igrejas evangélicas estejam se multiplicando, seus líderes enriquecendo: uma teologia sobre a proximidade do fim do mundo não parece plausível para quem está em ascensão com esperanças positivas. Tal visão otimista era, no entanto, de um teólogo do norte, Peter Wagner, como fica evidente em entrevista de 2011. Wagner afirma que, a partir de revelações, passou a acreditar que o mundo será cada vez melhor e que deixou de acreditar em tribulações e arrebatamento. Para ele, o milênio de paz será realizado pelos cristãos que terão a missão de instaurar o reino de Deus na Terra. Ainda que não fale da prosperidade, ao menos nessa entrevista, Wagner tem um sionismo cristão distinto de seus compatriotas. Apesar das ênfases distintas na interpretação dos textos bíblicos, os sionismos cristãos acima seriam todos “proféticos”, segundo a tipologia de Freston, discutida no início deste artigo. 


Embora não tenhamos encontrado nenhuma referência, por parte dos líderes sionistas cristãos analisados, às publicações aqui discutidas no início desse artigo, supomos pela circulação Inter denominacional, que eles as tenham lido e que elas façam parte de uma cultura religiosa latente que os predispôs a seu encantamento com Israel e a sua adesão ao sionismo cristão. Portanto, nossa análise sugere que a NAR estimulou e deu impulso político a sentimentos preexistentes na cultura evangélica brasileira a favor de Israel. Essa correlação entre a NAR e sionismo cristão já era observada na África por Chetty (2014) e no Brasil por Lopes (2013) e Barbosa (2017). A relação da NAR com o sionismo cristão também é evidenciada no fato de Jurgen Buhler (o já citado embaixador do ICEJ) ser um dos que representam a NAR em Israel. Sublinhamos que a luta mais claramente política, como defesa da transferência da embaixada para Jerusalém no Congresso Nacional, parece ter sido estimulada no governo de Trump, nos EUA e, posteriormente, pela vitória de Bolsonaro. 

  

Importante compreender que não existe na construção deste artigo a intenção de atacar nenhum individuo ou religião, entretanto é de fundamental importância se observar como a ideologias, conceitos e dogmas religiosos são pilares centrais para ideologias políticas, ao mesmo tempo indiferente do seu aceite ou não, os fatores do “achismo” não mudam os fatores históricos, sobre este entendimento podemos analisar que quando falamos de (pentecostais e neopentecostais) na política, estamos falando de “incubadora” da extrema-direita no Brasil. Ao mesmo tempo, vamos também verificar na história, como e porque tudo isso aconteceu, e o reflexo disso tudo hoje. Temos uma massa poderosa de pessoas sendo manipuladas e defendendo algo, ou nação sem de fato ter conhecimento do porquê suas igrejas estão defendendo o que estão. Isso é fundamental que seja observado, analisado pois estas características de articulação, manipulação, usando a religião são “fatores” com resultados imediatos nas urnas e fora delas, em nome da religião a grande massa vai se unir e unir seus manipulados, juntos vão ditar o caminho político e social de um país.  


O que precisamos perguntar é, até onde a parcela da sociedade (considerável) se beneficia com forças poderosíssimas como sionistas cristãos tomando o poder para si?  


Outro olhar e bem mais racializado, pudemos compreender que o sionismo basicamente, une, agrega o sentimento judeu por nação judaica, certo?  


Pois bem, então estamos falando de pessoas não pretas/negras, que tem o livre direito (inclusive com apoio de várias outras nações/governos) pelo nacionalismo judeu, certo?  


Então vós pergunto, se a eles nenhuma crítica existe, porque líderes negros/pretos, exemplo Marcus Garvey (considerado pai do nacionalismo negro/preto) na década de 1920, foi e é até hoje criticado por defender o nacionalismo do povo negro/preto?  


Não é estranho que pacifistas e humanistas critiquem falando que o discurso sobre o nacionalismo negro se trata de ódio por outras nações, povos e etnias, quando eles mesmos estão embebecidos exatamente pelo sionismo?  


Autor:

Ronaldo Arruda

Historiador, Dr em Ciências Políticas, Teólogo e Bacharel em Assistência Social 

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