Pois então. Vamos ao ponto!
Primeiramente vamos entender aqui que estamos falando do Brasil, então estamos falando de um país com tamanhos continental, cheio de realidades diversas, porém de uma estrutura racista, institucionalmente racista; segundo é o terceiro país com mais aprisionados, atrás somente dos EUA e da China, sendo quase metade de jovens entre 18 e 29 anos (46,4%) e a grande maioria de pessoas negras (67,5%), segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021.
Você acha que acabou, sinto muito em informar mas quando falamos em "encarceramento em massa da população preta" no Brasil estamos falando de um projeto político muito bem arquitetado, neste contexto os dados não são assombrosos apenas aos homens pretos, veja:
O estudo acompanhou cerca de 200 mulheres em audiências de custódia, no período de dezembro de 2017 a abril de 2018.
De acordo com a pesquisa, o Poder Judiciário brasileiro prende, julga e condena as mulheres sem nem ao menos levar em consideração possíveis medidas alternativas.
Além disso, o sistema de encarceramento é seletivo. De acordo com os dados, 68% das mulheres encarceradas são negras, 57% são solteiras, 50% têm apenas o ensino fundamental e 50% têm entre 18 e 29 anos.
Com estes dois pontos bem esclarecidos, vem a primeira pergunta: você acredita que a prisão é a solução?
O Brasil pode dizer, não é a solução. Ele pode dizer isso de maneira muito prática, as prisões brasileiras não recuperam ninguém, pelo contrário são verdadeiras universidades do crime.
Mas porque se prende tanto no Brasil então? Segunda pergunta.
Simples, em 13 de maio de 1888 (Isabel) pressionada pelo geopolítica não consegue mais manter africanos (as) e seus descendentes nas senzalas (resumidamente é isso) ,o Brasil sendo o último país a manter a escravidão, já sofria ameaças de sofrer boicotes e sensações econômicas, então sem opção, ela assina a lei áurea com dois artigos apenas, libertando os africanos (as) e seus descendentes da senzala, você ficou feliz? Fique não, fique não porque nesse processo não existe ingenuidade (sempre falo isso), lembremos que estamos falando da raça mais cruel, assassina e desumana da face da terra, então não tendo mais pretos para bater, estuprar, violentar e explorar. Eles resolvem então criar várias leis (e aí já estamos falando aqui de segurança pública, baseado na proteção da supremacia caucasiana em) com a “desculpa” de proteger a família e a sociedade.
Vou me abster de fazer qualquer juiz de valor sobre essa lei, ok.
Entendeu isso?
Pois é, então se abre as postas das cadeias e supostamente das penitenciárias.
Importantíssimo aqui lembrar que; os juízes e aí estamos falando agora do judiciário, composto na época por grande maioria de caucasianos, filhos, filhas e descendentes de grandes famílias caucasianas, e burguesa. Esses eram (e são até hoje) os julgadores (juízes) que interpretam as leis criadas pelos seus pares caucasianos (também) no parlamento.
Leis criadas, os juízes que vão interpretar, neste período quem era o ladrão, marginal, traficante, você sabe?
Por favor não se esqueça, estamos falando daqui do Brasil ,então os marginais, ladrões , traficantes e desonestos eram os pretos. Detalhe importante também, pretos retintos, ou com estereótipos negroides.
“Pronto, por isso no Brasil temos mais de 65% da população carcerária de pretos.”
Entendido isso, podemos dar continuidade a essa reflexão aqui.
Nessa continuidade, temos que falar de política não tem escapatória, e falar de política é falar que fomos domesticados a ver e compreender a política como lugar de vagabundos, corruptos etc...entretanto fomos domesticados, mas quem foi? Exatamente os pretos foram, os pretos desde cedo tem que trabalhar (historicamente não puderam frequentar a escola, existe leis que falam sobre isso), os pretos grande parte deles são moradores da favela, então dependem da escola pública (escola que ensina que pretos são descendentes de escravos, que falam sobre a revolução francesa, espaço tóxico para as crianças pretas, jovens pretos, desde sempre) ,todavia escolas que libertam sim, mas essa libertação tem raça e classe social específica para libertar, essa educação libertadora não é ampla, os pretos são educados para serem massa operária, mão de obra barata. Então a política sempre foi um espaço de poder, espaço onde novamente é deles os “caucasianos”, a raça mais desumana. Um poder que passa de pai para filho, de sogro para genro e chega aí a luta de gênero (as suas mulheres) caucasianas (através de uma ideologia ocidental) começam a também ocupar este espaço de poder; então do pai para filho, para esposa, para o genro, para nora (resumidamente estamos falando de dinastia caucasiana, na política brasileira).
O brasileiro (digo enquanto nação/povo) aprendeu a idolatrar política, o que deveria ser visto como “funcionário” do povo, já que é remunerado (e muito bem), passou com a ajuda das ideologias partidárias a endeusar políticos. Chegamos a 2018, a ideologia da extrema-direita (que foi encubada) pelas igrejas neopentecostais ,ganha o cenário nacional, com discurso de ódio, raiva, porém simples de fácil acesso começa a tomar as ruas, invadir as vielas, as favelas, esse discurso então começa a invadir as casas e famílias ,vai ganhando admiradores, surge então uma onde devastadora de conservadores de extrema-direita.
“Bingo, era tudo que o sistema queria”
De um lado a direita, de outro a esquerda e do outro a extrema-direita, que naquele momento se transformou em um poder monstruoso, barulhenta de mais. No meio das forças os pretos esqueceram (se é que algum dia lembraram) da famosa reflexão de Sueli Carneiro:
“Entre a esquerda e direita; continuo sendo uma mulher preta”.
Tínhamos os pretos, muitos que já tinham lá trás bebido das águas ideológicas dos partidos da esquerda, outros da direita, surgem os pretos da extrema-direita, obviamente que os pretos da extrema-direita sempre tivemos, mas neste momento eles emergem com força total.
Novamente repito a frase dos Racionais M’cs:
“Era tudo que sistema queria”.
De todos os lados os pretos ainda mais divididos, nunca foram unidos (são muitos, são maioria) mas sempre foram desorganizados, e as ideologias partidárias sempre tiveram enormes contribuições para desorganização dos pretos.
Durante o governo de extrema-direita, a frase mais falada era;
“bandido bom é bandido morto”.
A direita sempre gostou dessa frase, tanto que a direita sempre deu força ao poder bélico do estado, com a desculpa de se preocupar com a segurança pública.
Muita luta, os dias passaram, as lutas acirradas cada dia mais, chegamos em 2022, e tiramos o (des) governo de extrema-direita.
Você ficou feliz né?
Se fez o (L) achando que tudo seria diferente, então tá aqui;
“Após um imbróglio na Justiça, no próximo dia 6 de outubro deve ocorrer o leilão para a privatização do Complexo Prisional de Erechim, no Rio Grande do Sul. Resultado de uma parceria entre o governo Eduardo Leite (PSDB) e o Governo Federal, a medida deve contar com R$ 150 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a construção do presídio. Sua gestão ficará a cargo de uma empresa privada, através de uma concessão pública com duração estimada de 30 anos, no modelo de PPP (Parceria Público-Privada).”
Não entendeu ainda? Espera te explico:
“Governo Lula avança na privatização dos presídios e transforma juventude negra em mercadoria”
Entendeu agora?
Se você pretinho, pretinha ainda não entendeu serei mais claro:
“A situação se agrava com os incentivos do Governo Federal para que empresas privadas absorvam a gestão prisional e a transformem em um mercado lucrativo. Os contratos firmados com a iniciativa privada parecem querer favorecer o encarceramento em massa, com a imposição de cláusulas contratuais que exigem taxas mínimas de lotação das unidades prisionais, aliadas à remuneração da empresa por cada pessoa encarcerada, com a submissão dos corpos negros a trabalhos forçados e aumento das margens de lucro com a precarização ainda maior do sistema prisional“, compreendeu agora.
Isso oriundo de governo de esquerda!
Em suma, não estou defendendo nenhum partido político, nem atacando nenhuma sigla partidária, entretanto e todavia estou falando que nem com a direita, nem com a esquerda e muito menos com a extrema-direita a população preta no Brasil tem paz, e nem dignidade, seja quem for estamos sobre risco iminente e diariamente, e vou além; corremos muito mais risco com os “falsos defensores” , a vida pretas não “interessa a ninguém” e quando afirmo isso, quero dizer que vidas negras não importam no Brasil.
Todavia me pergunto: cadê o movimento negro?
Onde estão os pseudos líderes?
Cadê os intelectuais pretos (as)?
Cadê os militantes pretos da esquerda?
Todos em silêncio é isso mesmo? Pq?
Se todos estão em silêncio, necessário afirmar que esse silêncio além de crime contra a própria raça trata-se de mais decepção com o próprio povo preto, uma pena que em pleno século XXI, ainda não entendemos que a “libertação” da população preta e periférica não pode ter como pilar o opressor. Enquanto tivermos o sonho do “salvador da pátria” e não tivermos a “raça” como centralidade e defesa total e absoluta da raça, nunca seremos um povo autônomo e livre.
Com isso não estou aqui passando a mão na cabeça de ninguém; nem passando pano a seu ninguém, mas cobro da esquerda a responsabilidade da palavra, será que a esquerda brasileira tem palavra?
O que ela ganha encarcerado ainda mais vidas pretas, e quem ela quer beneficiar?
Pronto, para finalizar este dedo na ferida, digo que compreendo o silêncio estrondoso (infelizmente) de muitos pretos, volto a dizer fomos domesticados a sempre acreditar e esperar pelo "branco salvador" e quando começamos a sair deste circulo vicioso, vem os partidos, e simplesmente nós corrompe, nós compra com cargos, projetos e falsa ilusão de poder, ao mesmo tempo embuti em nossas mentes o lindo, romântico discurso e postura "pacifista" de grande Martin Luther King (lembra do discurso dele "eu tenho sonho" de 28 de agosto de 1963) pois eles amam esse discurso, afinal quanto mais controle eles tiverem de "nós" mais eles avançam sem que sejamos capazes de pensar e questionar.
Autor:
Ronaldo Arruda
Historiador, Dr. em Ciências Políticas, Teólogo e Bacharel em Assistência Social
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